EX-VOTOS

Ex-votos são objetos ou ações simbólicas que representam situações de vida de seus ofertantes. Por meio de oferta material e/ou ação corporal, o indivíduo agradece à entidade sobrenatural que o acudiu em momento de vicissitude o benefício recebido.
Embora essa prática seja mais freqüente entre as camadas populares, vê-se ainda hoje entre indivíduos de classe média e alta essa prática.
Essas formas de comportamento dão testemunho de uma fé viva. Elas atestam a capacidade de invenção, transformação e preservação de memórias compartilhadas. No oferecimento de uma pintura, escultura, objeto de cera, fotografia, além de cumprir um voto pessoal dão também continuidade a práticas antiqüíssimas.
A prática e o modelo básico do ex-voto pintado chegaram ao Brasil por intermédio do colonizador português. As coleções mais antigas do ex-voto pintado português datam na sua grande parte do séc. XVII, embora haja referência a retábulos executados no séc. XVI, hoje desaparecidos.
No Brasil, o ex-voto pintado teve curso nos séculos XVII e XVIII, no contexto da religião católica, com características composicionais, técnicas e lingüísticas de prototipia portuguesa.
Essas tábuas votivas pintadas fixavam no terço médio da composição a representação do ofertante, em geral enfermo no leito devido à moléstia ou acidente; a legenda aparece no terço inferior e a divindade no terço superior da pintura. É extraordinária a contribuição que os ex- votos pintados oferecem ao estudo do mobiliário, em particular do quarto de dormir. O mesmo se dá com a indumentária, os gestos, os comportamentos de classe. Nos é permitida aí a observação de escravos, crianças e mulheres.

MEMÓRIA VOTIVA

No universo do ex-voto, é preferencialmente o indivíduo, com seu drama pessoal, que se coloca como interlocutor frontal da divindade. Já na memória votiva transcorre um lapso maior de tempo entre a proteção concedida e a realização da promessa/objeto no espaço sagrado. Os textos que acompanham as memórias votivas têm muitas vezes caráter histórico e dizem respeito a coletividades inteiras, como os de Igaraçu, Pernambuco, que se referem à proteção de vilas. Ou então remetem à história de vida de um indivíduo, salvo de sucessivos perigos como numa história em quadrinhos.

OS PINTORES DE MAURÍCIO DE NASSAU

Entre 1630 e 1654, quase todo o nordeste esteve sob o domínio da Cia Holandesa das Índias Ocidentais. Os anos de governo do Conde de Nassau, graças a sua intervenção direta, foram particularmente ricos para a arte e a cultura no Brasil.
Em 21 de dezembro de 1678, o Príncipe de Nassau – Siegen, que entre 1637 e 1644 governara o Brasil Holandês, escreveu ao Marquês de Pomponne, ministro de Luís XIV, na França, buscando interessar o todo–poderoso monarca pelo que ainda restava de suas preciosidades brasileiras – 40 pinturas representando o país e seus habitantes, quadrúpedes, pássaros, peixes, frutas e vegetais, cidades e fortalezas, etc., obra, como explicava, dos seis pintores que tivera às suas ordens em terras americanas. Até hoje não foi possível identificar com precisão o nome desses seis pintores, sendo que apenas três são citados em documentos: Frans Post (1612-1680), Albert Eckhout (1610?-1666?) e Georg Marcgraf (1610-1643), aos quais poder-se-ia quem sabe acrescentar Zacharias Wagener (1614-1668), que já se achava no Brasil quando da chegada de Nassau. Para até superar o sexteto mencionado por Nassau seria necessário apelar para pintores de permanência incerta ou muito breve no Brasil.
Holandeses, flamengos, alemães, os chamados Pintores de Nassau, por não serem católicos, puderam mais fácilmente dedicar-se a temas profanos, o que não era práticamente permitido a seus colegas portugueses, tendo sido em conseqüência os primeiros no Brasil a fixarem a paisagem, os tipos étnicos, a fauna e a flora em nível profissional e sem os preconceitos e as superstições que anteriormente à sua chegada ao Novo Mundo era de praxe encontrar nas representações pictóricas de assunto americano.
Dentre todos os pintores arrolados, Frans Post e Albert Eckhout são de longe o mais importantes, e também os de vida e carreira mais conhecidas. Frans Janszoon Post, tinha 24 anos quando chegou em Recife, contratado por Nassau. No Brasil, desenvolveu intensa atividade, documentando a paisagem e tomando apontamentos de portos e fortificações que mais tarde aproveitaria como ilustrações, gravadas a água–forte. Através de suas pinturas pode-se julgar que não havia uniformidade arquitetônica mas uma série de variações em torno dos modelos portugueses de casa rural. Soube descrever o pitoresco do país tropical e de seus habitantes sem cair no excesso de particularismos e no jogo fácil dos efeitos cromáticos. A emoção nascida do contato com o espetáculo e inédito da terra brasileira (Ilha de Itamaracá, 1637), é substituída com freqüência, nas telas européias, por fórmulas consagradas (Olinda, 1650-1654). Em algumas obras, no entanto como no grande Panorama Brasileiro (1652) Post sublimou numa harmoniosa idealização a riqueza e a majestade da paisagem tropical. Retornaria à Holanda alguns meses antes de Nassau, e depois de concluída a tarefa de abrir as citadas águas-fortes para o livro de Barleu abandonou o serviço do Conde para dar início a uma carreira independente, que se estenderia por mais de 35 anos. Não foi pintor prolixo – em cerca de 40 anos terá pintado 200, 250 paisagens – nem muito menos criativo: suas paisagens das Índias Ocidentais repetem monótonamente um único esquema composicional.
Mais inovador foi sem dúvida seu colega Albert Eckhout, sobre quem paradoxalmente escasseiam os dados biográficos. Como Post, veio para Recife em companhia e a convite de Nassau, mas enquanto aquele tinha por meta a fixação dos cenários naturais, tocou-lhe retratar os diferentes tipos étnicos, a fauna e a flora do país. Algumas dessas pinturas faziam parte dos “presentes brasileiros” enviados por Maurício de Nassau a Luís XIV em 1678. Durante os oito anos que permaneceu no Brasil, pintou abundantemente, sendo de se destacar as 12 naturezas- mortas com frutas e legumes tropicais e os grandes “retratos” de tipos étnicos representados aos pares – índios tupis e tapuias, negros, mulatos, mamelucos -, mas Eckhout foi ainda autor de decoração de palácios e de centenas de estudos feitos à óleo sobre papel, aproveitados muitos deles na criação das chamadas Tapeçaria das Índias , obra prima da Manufatura dos Gobelins, entre 1687 e 1730. Entre 1740 e 1802 foi reproduzida uma nova série com algumas variações introduzidas em 1735-40 pelo pintor François Desportes.
Zacharias Wagener, soldado da Companhia das Índias, era despenseiro do conde e nas horas vagas pintava as ingênuas aquarelinhas, no total de cento e doze, que iriam constituir Thier–Buch ou Livro dos Animais, espécie de versão simplificada das pinturas de Eckhout ou das ilustrações xilográficas de cunho científico da Historia Naturalis Brasiliae, de Georg Marcgraf, cartógrafo alemão, autor de mapas e centenas de desenhos de plantas e animais que constam desta obra. Artista amador, que logicamente não suporta uma aproximação com gente de sólida formação profissional, como Post e Eckhout, Wagener foi pintor domingueiro, que num desenho improvisado evocou o que tinha ante os olhos, inovando por vezes, como nas aquarelas cheias de sabor em que retratou a Dansa de Tapuias ou a Rua dos Judeus em Recife.Foi citado também Gasper Schmalkalden, aventureiro alemão que costumava desenhar o que via. Seu diário compõe-se de longo texto, ilustrado por 128 mapas, aquarelas e desenhos do Brasil, sua gente, fauna e flora. Nassau também faz alusão, em sua carta ao Rei da França, a outro cartógrafo, identificado como Cornelis Goliath ou Jan Wingboons.
Diremos que, o surto artístico e cultural que ocorreu no Brasil Holandês deveu–se exclusivamente à Maurício de Nassau, nada tendo a ver com a Holanda propriamente dita nem muito menos com a Companhia das Índias Ocidentais holandesa; por outro lado, tais artistas de Nassau não foram os primeiros que trabalharam no Brasil nem sequer os primeiros pintores holandeses e flamengos que entre nós trabalharam, tendo sido precedidos por pintores ou ilustradores como Manuel Álvares, Belchior Paulo, João Batista, Cristóvão Lisboa e alguns outros. Na verdade, eles constituem um capítulo à parte no desenvolvimento da arte da pintura no Brasil, já que nem tiveram discípulos nem continuadores, nem exerceram sobre a mesma qualquer influência.

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